O tema depressão sempre é atual e
frequente. Afinal, não é raro falar-se sobre depressão e já ouvirmos que esta
ou aquela pessoa está tomando um ou outro remédio - daqueles famosos e que
podem ser referenciados facilmente em diversos sites da internet como este http://www.psicosite.com.br/far/and/amytril.htm, por exemplo.
Por outro lado, sempre nos ronda a
reflexão sobre um dos textos mais importantes da psicanálise - Luto e
Melancolia (Obras Completas - Vol XIV) - onde Freud estabelece uma série de
conceitos importantíssimos e básicos para a psicanálise dentre os quais vale
ressaltar, inclusive, a diferença básica entre estes termos:
Luto - a pessoa sofre por uma perda
específica, por algum tempo. Se este tempo for longo demais, pode incapacitar a
pessoa para vida.
Melancolia - a pessoa sofre
inespecificamente, sofre por tudo e por nada. É como um caráter, uma forma de
funcionamento que difere do luto por não guardar pontos de associação muito
claros e resultar em algo como um estado de desânimo intenso e constante para a
vida.
Como o desânimo, a tristeza e a
inibição, entre diversos outros sintomas, são parecidos entre estes dois
estados, uma visão médica pode encaminhar para o tratamento indistinto dos
sintomas aparentes. E destacamos: dos sintomas…
Não podemos nos furtar aqui a colocar
em jogo dois outros conceitos: inconsciente e afeto. A dinâmica do inconsciente
- do desconhecido, do recalcado - mobiliza o psiquismo em torno de
representações cruciais para o sujeito, mas que eventualmente não estão
simbolizadas para o seu ego, e então essa energia se dissipa pela via do afeto,
que impressiona o corpo com o que se pode chamar popularmente de emoções.
Pois
então, o que fazem os fármacos? Ajudam, sim, a atenuar as emoções
através de uma série de interações bioquímicas em que neurotransmissores e
hormônios são “ajeitados” e o sujeito fica mais estável. Mas, convenhamos, o
móvel das emoções, o que ficou não simbolizado e representa o núcleo da
questão não foi modificado. Mais do que isso, fica relegado a um silêncio
amordaçado.
O
que queremos denotar, portanto, é que o luto prolongado e a melancolia têm a
mesma importância patológica para o psiquismo do que pilares rachados e
partidos teriam para um edifício ( ! ). O sujeito (e o edifício) tem sua
estrutura próxima à de um colapso, mas cobrem-se as rachaduras e imperfeições
com a massa corrida dos fármacos. O sujeito (e o edifício) fica(m) mais
apresentável(eis) à sociedade, realmente, mas não há como negar a precariedade
de sua(s) estrutura(s).
O
assunto é amplo, polêmico muitas vezes, e uma vasta literatura foi produzida e
pode ser consultada. Um livro muito interessante é o de Andrew Solomon - O
Demônio do Meio Dia (Uma anatomia da depressão) em que o autor, em primeira
pessoa, aprofunda-se em sua própria depressão e procura contextualizá-la em
diversas formas de abordagem. Mas, para quem considerar o texto de Luto e
Melancolia, não se pode deixar de detectar o caráter melancólico do autor sendo
sustentado. Sustentado? Eis aqui o ponto de inflexão da psicanálise: não se
pode perder de vista que o sujeito melancólico, por mais estranho e ilógico que
possa parecer, mantém ativo, ainda que não intencionalmente, um modo de
existir melancólico. E escapar desta armadilha que a estrutura do seu
inconsciente armou para este sujeito é um dos grandes desafios para o qual a
psicanálise se apresenta como uma alternativa bastante apropriada, na medida em
que, da aplicação do seu método, deverá advir uma ressignificação do próprio
sujeito.
Não
esquecendo: assim como a intervenção em um edifício com pilares abalados é
custosa, demorada e modifica-o substancialmente, o mesmo deve-se esperar que
ocorra ao sujeito de um processo analítico.

